segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplismente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

domingo, 4 de outubro de 2009

As muletas

Quando começou tudo, eu queria apenas ser calma. Não como uma outra pessoa, mas assim como eu, calma, simplesmente. É que eu tinha percebido que eu vivia para os outros, então, decidi me livrar dos ‘outros’. Só que os outros era minha família! O que fazer então? As bifurcações do caminho... Alguma coisa, não sei o quê, me falou: “- Vai embora.” E eu fui.
Fui escalando a estrada, que tinha pedras enormes!! E depois menores e menores e enfim aprendi a andar com muletas!
Num desses passos apoiados, encontrei um rapaz observador. Ele disse que queria ser meu marido! Foi estranho. Ele também seria louco, assim como eu?
De tanto bater na porta, deixei-o entrar. Mas entrar pela metade, assim como ninguém merece amar. E ele me falou da simplicidade do mundo! Trouxe em suas mãos o presente que eu vim buscar. O ‘eu calma’! Ele trouxe, sim. Mas, mas eu não tinha mãos para pegar. Elas estavam presas às muletas, onde eu tinha que me apoiar.
É que eu não queria cair!!!
E depois entender que tudo são escolhas. As bifurcações do caminho... E ainda depois, entender que eu não sei escolher.


Patrícia Barbalho

sábado, 3 de outubro de 2009

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Shoulder to shoulder

Fico pensando o que estaria fazendo agora se a prova fosse amanhã? Dormindo? Vendo algum filme? Escutando música? Lendo? Jogando?
Pois é, não faço a mínima idéia, mas queria que a prova fosse amanhã mesmo, pelo menos iria me livrar de uma, estou ficando cansada de tudo!

Hoje o Café de fita voltou a ativa e estou feliz por ter voltado, mas perdi muito a prática em fazer críticas, hoje fiquei sem saber o que fazer direito (pra quem já não escreve bem, é complicado...)

E hoje estou sentindo um desejo imenso por novidades. ;D

P.S.: O título do post não tem nada a ver, mas estou ouvindo essa música agora, então...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Poesia

Já repeti o antigo encantamento. Sim, já repeti.
Pousei meus olhos nas pausas do amplo vento.
E nada. As feias deidades zombam de mim.
Meu coração partido, assim, é como um pórtico sobre o mar.

Poesias de ninar o Tempo. Vêm de dentro,
como se tivessem raízes. Amasso os versos e jogo no lixo.
Bicho humano, saio à cata do que fui. E encontro.
Poemas esparramados. O que me alimenta, flui em mim.

Na curva extrema do caminho, extremo do que penso.
E o mundo inteiro cabe aqui, dentro do peito.
Se eu morresse amanhã, meus sentimentos ainda estariam
acesos. Minha mãe e minha irmã se resignariam.

Versejar é deixar-se perder, em mar aberto, sentindo a dor das quilhas.
É entregar-se voluntário aos piratas em troca da visão do ouro.
Cavar a terra, em busca dos tesouros, até que as unhas fiquem pretas.
Toda vida é possível e suportável quando perdemos as certezas.

Restam as letras, crescendo para o nada.
Dando em palavras, como rosas pluriabertas.
Mando um buquê pro meu amor, depois de uma noite de tormenta.
E navegamos, em prazer e dor. Será que eu sou medieval?

Na mídia da novidade média, em um museu de grandes novidades,
às margens de um curral cheio de bestas. Sou eu,
desferrolhado e indecente, fragmento de uma década.
Pálida de espanto, escancaro as janelas.
E o ar frio quase congela em meus pulmões.

Quem dera, irmos juntos, Anarina, viver de brisa.
Descer do Rio pra Passárgada, hospedar-se no Esplanada.
Viver de nada. “Freedon is just another word...”
Passar na porta da Tabacaria, saudar a moça morta no edifício Miramar.
Convencer Ismália a não se atirar. Quem dera, quem dera...

Tecer a pele com a poesia de todas as eras,
todas as heras. Fechar as janelas, abrir o gás.
Amar Faon, mais que a Anactória.
Deixar que os corpos se entendam, para além das almas.
E suspirar, fumando um cigarro. A boca seca de beijo e álcool.

Aqui estão as minhas armas. A munição é o sentimento.
E sinto muito. Pelo que inexiste de poesia em minhas raízes.
Hoje tão mal, entregue ao mal. E está tudo como antes,
tudo como antigamente. A Divina Comédia Humana,
cruel e cotidiana. Como em Dante e como dentes.

Kátia Borges